1. A contribuição pessoal de Isaías Raw

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A contribuição pessoal de Isaías Raw

Por Maria Clara Matos, da revista Espaço Aberto

O ingresso na Faculdade de Medicina da USP, na década de 40, demonstrava, mais do que o interesse pela medicina, a paixão pela pesquisa. Mas que nosso imaginário não nos engane, Isaías Raw não tem o perfil do cientista enclausurado em seu laboratório e em suas experimentações. É conhecido por seu empreendedorismo, por suas inovações e projetos educacionais dirigidos a professores e a alunos, seja no ensino médio ou superior.

Com a pressa e o vigor de quem tem muito o que fazer, Raw, aos 81 anos, prima pela objetividade. Quando perguntamos sobre sua vida ele logo alerta: “Não dá pra fazer um perfil de uma pessoa com a minha idade e minha atividade. Seria necessário escrever um livro”. No entanto, ele deixa escapar que desde muito cedo já fazia suas travessuras e experiências. Entre risadas ele conta: “Eu tinha um laboratório no quintal da minha casa. Lá eu fazia desde explosões, até mostrar que o coração do sapo bate fora dele. Juntava a rua inteira”, relembra.

Raw ingressou na Faculdade de Medicina em 1945 e já no segundo ano do curso começou a dar aulas. Sobre a façanha, o professor diz: “Só não me pergunte como eu fiz isso, porque ninguém sabe”. Mas ele conta que naquele tempo havia muitos assuntos que a universidade não ensinava. Inicialmente começou a dar aulas sobre genética e posteriormente sobre a ação lesiva da radiação, já que era época do final da Segunda Guerra Mundial.

Em 1952 foi nomeado para participar do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (Ibecc), momento em que organizou feiras e museus, além de elaborar currículos e treinamento de professores. Raw também criou os kits de química e biologia, caixas repletas de objetos que davam a qualquer estudante a possibilidade de realizar experiências em suas casas.

Mas as atuações do cientista não foram bem aceitas pela ditadura militar e em 1964, durante o governo do general Castelo Branco, Raw foi detido. “Como tentativa de que eu não fizesse concurso para professor, eu fui preso”, explica. Considerado subversivo, o cientista ficou preso por 13 dias e foi liberado por dois motivos principais. O primeiro deles foi que 12 professores, incluindo sete ganhadores de Prêmio Nobel, escreveram um telegrama de protesto para o presidente da República sobre a prisão de Raw, o que foi notícia no jornal Folha de S. Paulo. O segundo foi a ida ao quartel de Albert Baez, diretor de ensino de ciências da Unesco, já que tinha um horário marcado com Raw para discutir ensino de ciências.

Esses fatos auxiliaram sua liberação e as ações da polícia não conseguiram afastá-lo da docência. Em 1965 tornou-se professor catedrático do Departamento de Bioquímica da Faculdade de Medicina.

Ainda entre 1950 e 1969, Isaías Raw destacou-se por variadas atividades, como a fundação da Editora da Universidade de São Paulo (1960) e de Brasília (1961), dirigiu a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências (Funbec), criou a Fundação Carlos Chagas e o Curso Experimental de Medicina da FMUSP. 

Em 1969, o cientista teve seu diploma cassado e foi aposentado compulsoriamente. Quando questionado do porquê de sua cassação Raw é enfático ao afirmar: “O problema não tinha nada a ver com o que você fazia, podia não fazer nada, que não seria admitido. Como era uma ditadura de direita, todas as pessoas de que o governo não gostava eram chamadas de comunistas.”

Durante esse período em que esteve fora do país, Raw desenvolveu pesquisas em universidades norte-americanas e em Israel, onde foi diretor do Projeto de Educação em Saúde Unesco. Inicialmente instalou-se na Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel, passou por outras instituições como o MIT (Massachusetts Institute of Technology) e a Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard, ambos nos Estados Unidos 

De volta ao Brasil, Raw em 1985 tornou-se presidente da Fundação Butantan e responsável técnico-científico do Centro de Biotecnologia. Desde então é grande fomentador da ciência produzida ali e contribuiu para que o instituto se transformasse no grande centro produtor de vacina no país. O cientista assinala que “atualmente o centro de pesquisa produz 82% das vacinas feitas no Brasil; com essas que o Ministério distribui mais outras que ele importa, a mortalidade infantil caiu menos da metade do que era”.

Raw explica que a maioria dos recém-nascidos morre atualmente por falta de sulfactante. Ele esclarece que o sulfactante pulmonar é como um detergente que se forma normalmente no final da gravidez. Quando o bebê dá o primeiro choro, se não houver essa substância o pulmão não se expande e a criança terá um problema grave. O sulfactante já foi produzido pelo instituto e aguarda liberação do Ministério da Saúde para ser distribuído gratuitamente. Segundo Raw, a meta é fazer com que a média de 300 crianças que morrem sufocadas por dia no Brasil consigam se recuperar.

O professor é otimista e afirma que o avanço em relação ao fornecimento gratuito de remédio no Brasil avançou muito nos últimos anos. Raw opina sobre a evolução da ciência produzida no país: “A ciência é uma atividade internacional e coletiva, cada um dá sua contribuição pessoal. Nós praticamente dobramos a produção científica nos últimos dez anos. Estamos num caminho muito bom.”

Fonte: http://www.usp.br/75anos/?idpag=121


Uma resposta to “1. A contribuição pessoal de Isaías Raw”

  1. Como faço para ler os manuais de experiência? Essa foi a melhor sérei e projeto de ciências de todos os tempo.
    ABCS

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