Entrevista com o Profº Isaias Raw

Junte-se a nosso time. Se você ainda possui as caixas de isopor em sua casa entre em contato conosco pelo email cipexbr[arroba]yahoo[ponto]com Ajude nossa campanha pelo resgate da memória e história da ciência e para o retorno da coleção “Os Cientistas”.

Entrevista

Isaias Raw

Cientista bom de briga

Claudia Izique e Neldson Marcolin

Edição Impressa 113 – Julho 2005

Pesquisa FAPESP –  

Desde o tempo em que era estudante na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), no final dos anos 1940, Isaias Raw conviveu com dois tipos de fama: a de empreendedor e a de brigão. Ao unir os dois qualificativos, ele se transformou num extraordinário agitador educacional, com idéias e projetos dirigidos a professores e alunos que iam do ensino médio ao curso superior – no caso, medicina. Até ter seus direitos cassados pelo regime militar, por meio do Ato Institucional nº 5, Raw foi responsável por grande movimentação nesse setor. A nomeação para o Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (Ibecc), em 1952, o liberou para organizar pioneiramente feiras, clubes de ciência e museus, a elaborar currículos, treinamento de professores e produção de equipamentos de laboratórios. Raw também criou e liderou a fabricação dos famosos kits de química, eletricidade e biologia, caixas repletas de experiências que podiam ser realizadas em casa por estudantes comuns.

Ainda nessa primeira fase, entre os anos 1950 e 1969, Isaias Raw manteve um ritmo alucinante de atividades. Fundou a Editora da Universidade de São Paulo e a da Universidade de Brasília, unificou os exames vestibulares de São Paulo (junto com o professor e sanitarista Walter Leser), dirigiu a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências (Funbec), criou a Fundação Carlos Chagas e o Curso Experimental de Medicina da FMUSP. Em meio a gestões de programas e fundações, continuou um pesquisador atuante em bioquímica, publicando em revistas especializadas no exterior. Quando de sua cassação, trabalhou em Israel e em universidades norte-americanas.

Nos anos 1980 em diante, de volta ao Brasil, Raw instalou-se no Instituto Butantan e ajudou, de modo decisivo, a transformá-lo no maior centro produtor de vacinas do país, com 200 milhões de doses anuais – hoje é o presidente da Fundação Instituto Butantan. Este ano ganhou o Prêmio Conrado Wessel de Ciência e Cultura, edição 2004, na categoria Ciência Geral. Aos 78 anos, casado, com os três filhos divididos entre os Estados Unidos e Israel. e três netos, ele ri quando percebe a quantidade de informação que despejou sobre os entrevistadores: “Sei que é impossível enquadrar, em uma única entrevista, uma vida de 65 anos, contando o laboratório na garagem, de atividades, onde me diverti fazendo ciência”.

Como o senhor se interessou por educação científica?
— Comecei estimulando a observação em análise experimental, criando uma feira de ciências em São Paulo nos anos 1950. A idéia era ocupar um salão da Galeria Prestes Maia com uma exposição a cada três ou quatro meses. A feira de ciências, naquele tempo, era uma forma de estimular a criançada a fazer e apresentar seus trabalhos. Depois inventei de levar dez estudantes selecionados, do ensino médio, para a reunião da SBPC [Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência] e eles se apresentavam como se fossem pesquisadores que mostram seus resultados. A coisa começou nos anos 1950 também porque existia um organismo chamado Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura, o Ibecc. Era a tradução do nome Unesco e representava esse organismo no Brasil.

O objetivo era atrair o jovem para a ciência desde cedo?
— Se não atraíamos os jovens no equivalente, naquele tempo, ao colégio, para se dirigir a uma carreira científica, já perdíamos o aluno. Tem que começar muito cedo. Colocávamos dez ou 20 jovens escolhidos por nós para fazer experiências – construir aparelhos, por exemplo, com um torno que era da Escola Politécnica num tempo em que não tinha motor, que era com pedal, e iam fazer a experiência. Mas rapidamente ficou claro para mim que 20 pessoas não iam mudar o Brasil. Tínhamos que achar um outro jeito de multiplicar esse processo. E esse processo era o clube de ciência – que foi redescoberto muitos anos depois, no Rio de Janeiro, pelo bioquímico Leopoldo de Meis, da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro]. O problema é que nossos clubes eram muito modestos em termos de número. Achei que, em vez de investir na formação de uma elite, deveria intervir na escola secundária e partir para a massificação usando os kits e minikits de química, eletricidade e biologia.

Como surgiram os kits de ciência?
— Eu tinha um laboratório no quintal da minha casa. Naquele tempo se comprava ácido na esquina, na loja de ferragens. Tive a idéia de fazer algo mais organizado, que as pessoas pudessem comprar – um pacote de material, com reagentes e o que fosse necessário para trabalhar em casa, que pudesse ser fechado e guardado. Isso já existia comercialmente na Alemanha nos anos 1930. Criei uma mala, na verdade um caixote de madeira com uma alça. Aí surgiram os kits de química, de eletricidade, de biologia e até de matemática.

Fonte: http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=2860&bd=1&pg=1


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: