A pesquisa realizada com Os Cientistas

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INFLUÊNCIA DOS “KITS” OS CIENTISTAS NO DESENVOLVIMENTO DO COMPORTAMENTO CIENTÍFICO EM ADOLESCENTES [1]

BERNADETE ANGELINA GATTI (foto)[2]

MARIA AMÉLIA AZEVÊDO GOLDBERG**

 Bernadete_Gatti

RESUMO

O presente estudo propõe-se verificar em que medida o objetivo de desenvolver compor­tamento científico pode ser atingido através dos “kits” da série Os Cientistas que a Abril/FUNBEC editaram. Trabalhou-se com os quatro primeiros “kits” da série: NEWTON, LAVOISIER, EINSTEIN e VOLTA, e com o “kit” GALILEU, modificado, de modo a servir aos objetivos da avaliação na pesquisa.  O Grupo Experimental foi composto de 34 sujeitos e o Grupo Controle também, sorteados aleatoriamente dentre alunos da 8ª série de três co­légios da cidade de São Paulo. Os resultados demonstram alto grau motivacional do material e revelaram um ganho significativo por parte do Grupo Experimental quanto a conhecimento e habilidades intelectuais, bem como melhores resultados para este grupo quanto a encaminhamento de solução de problemas.

SUMARY

Effects of “The Scientists” kits on the Development of Scientific Behaviors in Adolescents – The present study was designed to verify the effects of “the series of “The Scientists” kits, published by Abril/FUNBEC, on the development of scientific behavior. The for first “kits” of the series were used in the study: NEWTON, LAVOISIER, EINSTEIN and VOLTA, and the kit GALILEU, was modified for evaluation purposes. The experimental and control group consisted of 48 subjects (24 subjects in each group), randomly selected among students of the 8th grade of three schools in São Paulo. The results indicated that the kits had a high influence on motivation and that the Experimental Group obtained a significant gain in terms of knowledge and intellectual abilities, as well as better results in problem solving.

 

 

I — INTRODUÇÃO

Na cultura do mundo de hoje, ciência e tecno­logia ocupam lugar de destaque. Vamos encontrar repercussões desse fato, na valorização crescente que se vem emprestando ao desenvolvimento do comportamento científico como objetivo educacio­nal. Prova disso é a produção de livros, materiais didáticos, currículos, etc., propondo desenvolver, no aluno, este ou aquele aspecto do comportamento científico. Isso não significa, porém, que exista um consenso teórico sobre a melhor maneira de provo­car as mudanças comportamentais definíveis sob essa rubrica. Mesmo entre os que admitem que a melhor forma de desenvolver esse comportamento é levar os alunos a se comportarem cientificamente, há divergências sobre como orientar essa aprendi zagem. Há os que admitem que uma abordagem pu­ramente indutiva será a mais adequada, a eles se contrapondo os que acentuam as vantagens de uma abordagem dedutiva.

Por outro lado, mesmo entre os indutivistas há divergências metodológicas. Há os que defendem uma linha “molecular”, em que o sujeito é treinado a fazer descobertas parciais sem uma visão previa do conjunto e há os que defendem a idéia da que o processo de aprendizagem deve ser “molar”, isto é, partir de uma visão de conjunto da situação problema e exigir que o aluno levante hipóteses, teste-as e conclua por si próprio.

As evidências existentes sobre as várias orienta­ções metodológicas acima apresentadas estão longe de serem consideradas definitivas. Um longo esfor­ço de pesquisa ainda se faz necessário, especialmen­te no sentido de avaliar as contribuições que novos currículos e nova tecnologia educacional possam tra­zer para a aprendizagem do comportamento cienti­fico. O presente estudo se insere nessa linha de in­vestigações e se propõe a verificar em que medida o objetivo de desenvolver este comportamento pode ser atingido através dos “kits” da série Os Cientis­tas que a Abril/FUNBEC lançaram no mercado.

 

II — PLANEJAMENTO DA PESQUISA

1º — Definição de comportamento científico

A especificação de comportamento científico foi feita em termos cognitivos e atitudinais, isto é, defi­nimos comportamento científico como resultante da aquisição de conhecimentos, habilidades e atitu­des necessários à compreensão e aplicação do mé­todo científico. os conhecimentos dizem respeito a conceitos, terminologia científica, etc. Dentre as ha­bilidades intelectuais necessárias, incluímos as se­guintes:

       1. observar e medir coisas e fenômenos com me­ticulosidade e rigor;

       2. perceber ou discernir problemas;

       3. formular hipóteses adequadas ao problema;

4. testar hipóteses, realizando ou concebendo experimentos;

       5. interpretar dados e extrair conclusões pertinentes.

No domínio das atitudes. Incluímos as seguintes:

       1. ter curiosidade, ser inquisitivo;

       2. apreciar o desafio de uma atividade de des­coberta;

       3. basear suas opiniões, tanto quanto possível, em fatos comprovados;

       4. não tirar conclusões apressadas.

Pesquisas realizadas (Cattell et alii, 1950) de­monstram que o interesse pode ser considerado como a dimensão de intensidade de uma atitude. Isto significa que ao medirmos interesse científico estaremos indiretamente medindo atitude científica.

Por outro lado, tem-se considerado o interesse como fator determinante de atenção e aprendizagem e de efeitos inibitórios sobre processos de não-perseverança. Consequentemente, medidas mais objetivas de interesse podem ser conseguidas atra­vés de variáveis tais como distração, persistência na tarefa, retenção imediata, etc.

 

2.° — Análise da orientação metodológica dos “kits” da série Os Cientistas

       Os “kits” seguem a orientação que denomina­mos indutiva molecular. Através de uma série de etapas, o sujeito é levado a realizar experimentos a fim de constatar certas relações entre fenômenos.

Há, em cada experimento, um problema gera­dor, a partir do qual o sujeito deve montar um ins­trumental e realizar a experiência, para depois res­ponder as questões — o que aconteceu? como? por que? — relativas ao problema.

Ao longo das instruções, enfatiza-se repetidas vezes que a montagem dos aparatos deve ser cui­dadosa, meticulosa, a fim de possibilitar conclusões precisas. A preocupação com o rigor nas observa­ções está presente, também, quando as instruções recomendam ao sujeito que confirme seus resulta­dos, repetindo as experiências, em dois casos:

a) quando os resultados que obteve divergem dos resultados esperados (ou corretos);

b) quando há necessidade de repetição para compensar as variações de medida.

Recebe-se a cada passo informação da correção ou não das respostas encontradas, antes de se pas­sar para o próximo passo.

3.ºMaterial utilizado

os quatro primeiros “kits” da série Os Cien­tistas: NEWTON, LAVOISIER. EINSTEIN e VOLTA; — o “kit” modificado referente a GALILEU.

4.º — Sujeitos

Grupo Experimental: 24 sujeitos

Grupo Controle: 24 sujeitos

Esses sujeitos foram sorteados aleatoriamente dentre os alunos, de cada um dos sexos, da 8ª série de três colégios da cidade de São Paulo. Só en­traram na composição da amostra sujeitos que ain­da não tinham trabalhado com nenhum dos “kits” da série. O Grupo Experimental foi distribuído ao acaso em quatro subgrupos de seis alunos cada um, de forma que cada subgrupo pudesse trabalhar com cada um dos quatro “kits”, em rodízio, para se po­der controlar a possível influência da ordem de realização.

Especificam-se nas Tabelas I, II e III as características dos sujeitos componentes desses dois grupos, quanto a idade, sexo e nível sócio-econômico, avaliado este segundo a escala de prestígio ocupacional (modificada), de Hutchinson (Dias, 1962). Observa-se que as médias de idade do Grupo Experimental e do Grupo Controle são iguais (x=15 anos), e as variabilidades também semelhantes (Grupo Experimental: s=l,12; Grupo Controle: s=1,3). A distribuição do nível sócio-econômico é, também, bastante semelhante nos dois grupos: para os dois níveis mais altos da escala (2 e 3) temos em cada grupo 11 alunos, e nos níveis mais baixos (5 e 6), quatro alunos no Grupo Experimental e cin­co no Controle.

 

TABELA I — Distribuição dos sujeitos segundo a idade

\ Grupo

Idade 

Experimental

 

Controle

 

13

 

3

 

14

 

8

 

9

 

15

 

9

 

11

16

 

3

 

3

 

18

 

1

 

 

20

 

 

1

 

Total

24

24

 

TABELA II — Distribuição dos Sujeitos segundo o sexo

                 \Grupo                            

Sexo

Experimental

 

Controle

 

Masculino

 

11

 

12

 

Feminino

 

13

 

12

 

Total

24

24

 

TABELA III — Distribuição dos sujeitos segundo o nível sócio-econômico

(Escala de Prestigio de Hutchinson)

\Grupos          

Níveis 

Experimental

 

Controle

 

Total

 

2

 

5

 

8

 

13

 

3

 

6

 

3

 

9

 

4

 

9

 

8

 

17

 

5

 

3

 

5

 

8

 

6

 

1

 

 

1

 

Total

 

24

 

24

 

48

 

 

5.º — Plano do Trabalho e Instrumental Empregados[3]

A presente pesquisa foi realizada em cinco dias consecutivos. Nos quatro primeiros, o Grupo Experimental trabalhou, por um sistema de rodízio, com os “kits” referentes a NEWTON, LAVOlSIER, EINSTEIN e VOLTA. No quinto dia, tanto o Gru­po Experimental como o Controle trabalharam com o “kit” GALILEU modificado.

Os instrumentos utilizados para a medida dos objetivos que nos propúnhamos a avaliar foram:

a) Escala de Observação de Persistência na ta­refa;

b) Roteiro de Observação da concentração na tarefa;

c) Opinionário (anexo 1);

d) Prova Objetiva de conhecimentos e habili­dades intelectuais, com 40 Itens de 5 alternativas;

e) “kit” GALILEU modificado;

f) dois problemas relativos ao “kit” GALILEU;

g) Teste de Retenção Imediata, com 5 questões. relativo ao “kit” GALILEU.

O Quadro a seguir resume os objetivos visados, as variáveis e os instrumentos utilizados para sua medida.

 Tabela3

Como se pode verificar pelo quadro anterior, os instrumentos foram construídos para avaliar as va­riáveis que operacionalizam aspectos atitudinais e cognitivos do comportamento científico, tais como foram colocados na introdução do presente trabalho.

Durante cada sessão do Grupo Experimental, que durava em média três horas, os observadores[4] acompanhavam o trabalho assinalado, para cada su­jeito:

a) os passos cumpridos, na Escala de Persis­tência;

b) a incidência de comportamento de distração, no Roteiro de Observação.

Ao fim do primeiro dia de trabalho, tendo cada sub-grupo do Grupo Experimental trabalhado com um dos quatro “kits”, pediu-se aos sujeitos que res­pondessem a um Opinionário com o objetivo de ava­liar o interesse despertado pelos diferentes mate­riais e pela tarefa, as possíveis dificuldades, etc..

A Prova Objetiva de conhecimentos e habilida­des intelectuais foi aplicada a ambos os grupos: como pré-teste, foi aplicado ao Grupo Experimental, an­tes do início da primeira sessão de trabalho, e ao Grupo Controle, em suas escolas; como pós-teste, foi aplicado, aos dois grupos, antes do inicio da quinta sessão de trabalho. Nesta sessão, os sujeitos do Grupo Experimental e do Grupo Controle trabalharam com o “kit” GALILEU modificado. A bula para este “kit” resultou de algumas modificações, introduzi­das na bula original, a saber:

a) supressão de toda a parte relativa a experi­mentos sobre queda dos corpos;

b) eliminação do tratamento experimental com o fator massa, em relação ao pêndulo:

c) supressão da chave de correção: o sujeito não era informado do acerto ou erro de suas res­postas às questões levantadas.

Essas modificações foram necessárias a fim de possibilitar a avaliação dos aspectos cognitivos do comportamento científico.

Com este mesmo objetivo, propôs-se ainda aos sujeitos dos Grupos Experimental e Controle dois problemas relativos ao pêndulo com que haviam tra­balhado.

No primeiro problema, os sujeitos deveriam ser capazes de conceber uma experiência para determi­nar a existência ou não da influência do fator massa sobre o período do pêndulo. Para resolver este problema, já deveriam ter interiorizado o principio de que o período do pêndulo depende do compri­mento do fio, mas não depende do ângulo de oscilação.

Para resolver o segundo problema, os sujeitos deveriam ter aprendido, através do primeiro proble­ma, que o fator massa não influi no período do pên­dulo e que, portanto, a solução da questão dependeria apenas da manipulação da variável comprimen­to do fio.

Em ambos os problemas era importante que os sujeitos tivessem aprendido a medir corretamente o período.

Nessa mesma sessão, foi feito uma observação sistemática dos aspectos de persistência e qualida­de de execução da tarefa, tanto no que respeita aos trabalhos com o “kit”, como no que se refere à resposta aos problemas. Para este fim, elaborou-se um roteiro de observação específico.

 

III — APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

1. Persistência e concentração na tarefa. Opinionário 

As tabelas IV e V resumem os resultados obti­dos na observação quanto a persistência e concen­tração na tarefa.

Foram feitas duas tabulações para a Escala de Persistência na tarefa:

1º — número de sujeitos que atingiram os 27% do intervalo superior da escala de pontos obtidos;

2º — número de sujeitos que atingiram o má­ximo de pontos que podem ser obtidos em cada um dos “kits”.

Através de uma análise de conteúdo do Roteiro de Observação, os comportamentos de distração fo­ram classificados inicialmente em 27 categorias, de­pois sintetizadas em duas grandes classes de com­portamentos; verbais e não-verbais.

TABELA IV — Número de sujeitos que atingiram os 27% do intervalo superior de pontos obtidos e número de sujeitos que atingiram o máximo de pontos da escala, por “kit” (n = 24)

\“kit”

Critério

Newton

 

Lavoisier

 

Einstein

 

Volta

 

27% superior

 

21

 

19

 

18

 

15 

Máximo de pontos

 

13

 

12

 

3

 

6

 

 

TABELA V — Frequência de comportamentos Verbais e Não-Verbais de distração, por “kit”

                   \Kit Comportamento de distração

Newton

 

Lavoisier

 

Einstein

 

Volta

 

Total

Verbal

2

4

4

16

16

Não-verbal

19

60

60

173

173

Total

21

64

64

189

189

  

A. Tabela IV permite ver que a maioria dos su­jeitos mostrou persistência em todas as tarefas, o que nos leva a pensar que elas são bastante motiva­doras. Notamos também que, nos “kits” EINSTEIN e VOLTA, poucos sujeitos conseguiram o máximo de pontos em persistência. São “kits” de trabalho mais demorado, o de EINSTEIN apresentando alguma dificuldade nas experiências, especialmente no que se refere ao efeito fotoelétrico, e o de VOLTA apresentando dificuldades nas experiências sobre a cor­rente elétrica. As respostas obtidas às questões n.º 10 e n.º 13 do Opinionário permitem-nos afirmar isto. Pelas respostas dadas a essas questões, verifi­camos também que alguma dificuldade é apontada em relação ao LAVOISIER, e é justamente nos “kits” de EINSTEIN e LAVOISIER que encontramos o mais alto índice de comportamentos de distração.

Quanto às informações obtidas no Opinionário, em síntese verificamos que:

a) nenhum sujeito se mostrou desinteressado; apenas dois “pouco interessado”, e 94% “razoavelmente” ou “muito interessado” (destes, 58% “muito interessado”);

b) as principais razões do interesse são “Gosto de fazer experiências”, “Gosto de tarefas que levam a gente a fazer coisas”, “Nem senti o tempo passar” e “As instruções eram sempre claras e fáceis de se­rem seguidas”;

c) as experiências apontadas como “a que mais gostou” foram as de massa e aceleração (NEWTON), reação de química em sistema fechado (LAVOI­SIER), o galvanômetro (VOLTA), sendo as principais razões da preferência o fato de serem: “interessante”, “instrutiva”, “precisão dos resultados”, “Fácil de compreender e de fazer”, “novidade”;

d) foi muito baixa a frequência de sujeitos apontando experiências “que menos gostou”, a maioria respondendo “nenhuma” a esta questão;

e) quanto a dificuldade no trabalho, só um su­jeito apontou ter tido muita dificuldade (NEWTON); sete apontaram razoável dificuldade, cinco dos quais no EINSTEIN. Dos sujeitos da amostra, 66% apontaram pouca ou nenhuma dificuldade;

f) as razões principais para “muita” ou “razoá­vel dificuldade” foram “nem sempre as peças se en­caixavam bem” e “nem sempre eu conseguia enten­der o que me pediam para fazer”; dentre as razões para “pouca” ou “nenhuma dificuldade” a que teve mais alto nível foi “as instruções eram sempre cla­ras e fáceis de acompanhar” seguida de “as peças são fáceis de encaixar e de usar” e “aprendi a ob­servar e experimentar”;

g) na discriminação de dificuldade ou facilidade, nas diversas experiências de cada “kit”, foram apontadas novamente dificuldades quanto ao encai­xe de peças e erros de cálculo e contagem. Essas dificuldades aparecem relacionadas com a experiên­cia de força e aceleração (NEWTON), de efeito fotoelétrico (EINSTEIN), e de corrente elétrica (VOLTA). Por outro lado, foi apontada facilidade de tra­balho na grande maioria das montagens e realiza­ção das experiências;

h) quanto à apresentação material dos “kits”, 87% dos sujeitos foram de opinião que estão bem construídos.

TABELA VI — Médias e Variâncias dos escores brutos no Pré e Pós-teste

Grupos

 

Experimental

 

Controle

 

Estatística

Pré-teste / Pós-teste

 

Pré-teste / Pós-teste

 

Média

 

14,79        19,12

 

16,29          16,08

 

Variância

11,56         22,11

 

21,61          23,99

 

 

2. Pré e Pós-teste

Os resultados obtidos pelos sujeitos do Grupo Experimental e do Grupo Controle acham-se discriminados no anexo 2 e sintetizados na Tabela VI. Na comparação entre os resultados, foram utilizados o “Wilcoxon Rank Sum Test: unpaired replicates” e o “Wilcoxon Rank Test: for paired observations”.

Podemos concluir que:

a) Não houve diferença significativa no pré-teste entre os Grupos Experimental e Controle;

b) houve uma diferença altamente significati­va (0,001), evidenciando ganho, entre o pré e o pós-teste do Grupo Experimental;

c) não houve diferença significativa entre o pré-

e o pós-teste do Grupo Controle; não houve ganho nos resultados do pós-teste deste grupo;

d) houve, uma diferença significativa (0,025) entre os resultados no pós-teste do Grupo Experi­mental e do Grupo Controle, sendo os resultados do Grupo Experimental significativamente maiores do que os do Grupo Controle. Pode-se ter uma visão deste ganho no Gráfico 1;

e) o aumento de variância no pós-teste, em re­lação ao pré-teste, foi multo maior no Grupo Ex­perimental do que no Grupo Controle: este dado, acrescido à diferença constatada entre as medias, indica que houve uma aprendizagem no Grupo Experimental, mas que seus sujeitos não dominaram de maneira uniforme os conceitos e habilidades envolvidos no teste.

Gráfico 1 — Polígono de Frequência — Pós-teste dos Grupos Experimental e Controle

 

Gráfico_Imagem_invertida 

3. Resultado da sessão de trabalho com o “kit” GALILEU modificado

No que se refere à persistência na tarefa de realizar as experiências propostas no “kit” GALILEU modificado, ambos os grupos apresentaram alto grau de persistência. Do Grupo Experimental, 79% dos sujeitos se colocaram nos 27% do extremo superior de pontos, contra 75% do Grupo Controle. O mate­rial parece despertar interesse, mesmo sem ter a confirmação das respostas, o que era o caso neste “kit” modificado; mostra-se, também, altamente atraente e motivador para os que entram em contato com ele pela primeira vez.

Ao mesmo tempo em que os observadores acompanhavam o cumprimento dos passos deste “kit”, fa­riam observações quanto a alguns comportamentos relativos à realização das experiências. Estes com­portamentos poderiam servir como referencial da aquisição de certas habilidades — como precisão de medida e de observação -— que poderiam diferenciar o Grupo Experimental do Grupo Controle e foram anotados através de um roteiro de observação espe­cífico.

Tabela2 

 Nesta tabela aparecem algumas diferenças, embora pequenas. Assim, verifica-se que:

a) comparados com o Grupo Controle, mais sujeitos do Grupo Experimental usam corretamente a escala de medida;

b) no cuidado de azerar o nível da água para começar a medida, no experimento B, ambos os grupos se mostraram igualmente cuidadosos; já no se­guinte, C, o número de sujeitos do Grupo Experimental que mantém esta preocupação é maior que o do Grupo Controle;

c) quanto à precisão no soltar a bola e come­çar simultaneamente a medir, tanto no experimento B como no C, maior número de sujeitos do Grupo Experimental teve este cuidado;

d) na contagem das idas e voltas do pêndulo, no experimento B e, especialmente, no C e no D, o número de sujeitos do Grupo Experimental que fez a contagem correta foi bem superior ao do Grupo Controle.

Em síntese, podemos considerar que há evidên­cia, embora pequena, de que os sujeitos do Grupo Experimental tem mais preocupação com relação à precisão das medidas a serem obtidas do que os sujeitos do Grupo Controle.

No pequeno teste de retenção imediata, aplica­do logo após o término das experiências do “kit” GALILEU, a média do número de respostas corretas foi maior para o Grupo Controle. Este obteve uma média de 2,8 respostas corretas, e o Grupo Ex­perimental de 2,1: uma razão para esta diferença talvez possa ser a situação motivadora causada por um material inédito para o Grupo Controle.

Analisando-se as formas de solução oferecidas aos dois problemas propostos, foram observadas va­riáveis que poderiam evidenciar a apreensão e utili­zação dos conceitos introduzidos com o “kit”, a preocupação com a observação, a precisão das mensurações, a capacidade de conceber e realizar uma experiência, etc. Assim é que se observou, por exem­plo, a consideração da variabilidade da massa, da manutenção ou não do comprimento do fio, repeti­ção da experiência para confirmar resultados obtidos, rigor na medida, resposta correta ou incorreta, etc. (ver Tabelas VIII e IX). Além disto, o encaminhamento da solução foi classificado através de uma análise de conteúdo, em:

Solução insatisfatória — quando houve erro na resposta ou na medida e no processo, tendo-se evi­denciado que o sujeito não assimilou os conceitos com a realização das experiências do “kit”;

Solução razoável — quando acertou a resposta apresentando, no entanto, algum erro na mensuração ou no processo;

Solução satisfatória — quando houve acerto de resposta, sem erros no processo e nas medidas, com claras evidências de que apreendeu corretamente os conceitos que a realização do “kit” propicia.

Os dados estão reunidos nas Tabelas VIII e IX.

Tabela VIII – Encaminhamento da Solução do 1º problema – “kit”: GALILEU

                         Grupo                      Experimental                          Controle

Variáveis

Variou massa (Sim)                                   24                                        22

Manteve constante o comprimento

do fio (Sim)                                            13                                        11

Repetiu experiências (Sim)                         13                                        11

Resposta correta                                      15                                         7

Resposta errada                                        7                                         15

Solução Insatisfatória                                 8                                         15

Solução razoável                                       4                                          3

Solução Satisfatória                                  10                                         4

Não fizeram                                            —                                         2

Desistiram depois de tentar o experimento   2                                        —

Tabela IX – Encaminhamento da Solução do 2º problema – “kit”: GALILEU

                                                               Grupo                 Experimental                          Controle

Variáveis

Variou comprimento do fio (Sim)                           15                               14

Mediu corretamente o fio na solução (Sim)              12                                8

Repetiu experiência (Sim)                                     9                                11

Leitura correta na escala                                     14                                12

Solução Insatisfatória                                           7                                 11

Solução razoável                                                —                                   —

Solução Satisfatória                                           12                                   8

Não fez                                                          14                                    5

Desistiu                                                           1                                    —

 Tanto no que se refere à solução do primeiro como do segundo problema, o Grupo Experimental apresentou melhor desempenho do que o Grupo Controle. Assim é que, no primeiro problema, 15 sujeitos do Grupo Experimental acertaram a resposta e, do Grupo Controle, apenas 7; dentre os sujeitos des­te ultimo grupo, 7 obtiveram soluções razoáveis e satisfatórias, contra 14 do Grupo Experimental. Den­tre as soluções satisfatórias para o primeiro problema algumas foram consideradas mais criativas ou menos criativas pelos especialistas. A solução con­siderada mais criativa apareceu somente em um dos sujeitos, justamente do Grupo Experimental.

No segundo problema também o número de soluções satisfatórias é maior para o Grupo Experimental, evidenciando-se ainda, neste grupo, maior pre­cisão e preocupação com respeito às mensurações.

 

IV — CONCLUSÕES

As principais conclusões do presente experimen­to podem ser assim sumariadas:

l. Houve alto grau de persistência na tarefa, em todos os “kits”.

2. Houve baixa incidência de comportamentos de distração. Estes foram mais numerosos nos “kits” LAVOISIER e EINSTEIN para os quais foram tam­bém observadas e apontadas dificuldades maiores na realização. Estas dificuldades ocorreram, no “kit” LAVOISIER, na montagem e equilíbrio da balança, e no “kit” EINSTEIN, na obtenção do efeito fotoelétrico.[1]

3. A grande maioria das opiniões emitidas pelos sujeitos reflete interesse pelos “kits”, sendo ressal­tados aspectos como a clareza e facilidade das instruções, a adequação das peças, a novidade e o in­teresse que as experiências despertaram.

4. Comparados com o Grupo Controle, os sujeitos do Grupo Experimental apresentaram um ganho bastante significativo em termos de conhecimentos e habilidades intelectuais.

5. No rigor e precisão de medida e no encaminhamento de solução dos problemas do “kit” GALILEU modificado, o Grupo Experimental mostrou melhores resultados com número de “soluções satisfatórias”, bem maior que o das do Grupo Controle.

Nossos resultados permitem concluir pela superioridade do Grupo Experimental em relação ao Gru­po Controle no que respeita às variáveis cognitivas do comportamento científico. Isto pode indicar que o trabalho com os “kits” da série Os Cientistas teve como efeito desenvolver nos sujeitos do Grupo Ex­perimental conhecimento de conceitos e terminolo­gia, habilidades de compreensão e aplicação de prin­cípios, rigor na observação e mensurações, capacidade de solucionar problemas através de teste experi­mental de hipótese, o que, em conclusão, permite afirmar que, a longo prazo, o material se presta ao desenvolvimento do que chamamos de comportamen­to científico. Todavia, em experimento desta natu­reza, com pequenas amostras e grupos de controla, apesar do rigor metodológico, há sempre a interferência de variações individuais decorrentes do processo anterior de escolarização de cada sujeito; des­sa forma, as diferenças possivelmente seriam mais consistentes não fora esse tipo de interferência.

Os dados relativos a persistência, concentração e retenção imediata sugerem, por sua vez, que esse material é altamente motivador.

 

Bibliografia

BLOON, B. S., et al. 1971 — Handbook on formative and aummative evoluattion of student learning, New York, McGraw-Hill.

BRUNER, J. S. 1968 — Toward a theory of instruction New York, Norton.

______ . O processo da educação. São Paulo, Ed. Nacional.

CATTELL, R. B., HEIST, A. B., HEIST, P. A., STEWART, R. G. 1950 — The objective measurement of dynamic traits.  Educational and psychological measurement. Durham, W. Scott Gehman, 10 (2): 234-248.

DIAS, J. A. 1967 — Ensino médio e estrutura sócio-econômica. Rio de Janeiro, INEP.

EBEL, R. L. 1965 — Measuringeducational achievement. NewJersey, Prentice-Hall..

HUTCHINSON, B. 1961 – Mobilidade e trabalho, MEC-INEP.

JUNGWIRTH, E. 1970 — An Evaluation of the attained development of the intellectual akills needed for “Understanding of the nature of scientific enquiry” by B.S.C.S. Pupils in Israel, Jornal of Research in Science Teaching. New York, John Wiley, 7: 141-151.

WILCOXON. F., WILCOX, R. A. 1964 — Some rupid approximate statistical procedures. New York, Lederie Laboratories, Peari River (rev.).

 

ANEXO l[2]

OPINIONÁRIO

Instruções

Estamos interessados em colher suas observações a cerca do trabalho que voçê acaba de fazer. Gos­taríamos, pois, de pedir-lhe que responda as pergun­tas impressas a seguir.

NÃO HÁ NECESSIDADE DE COLOCAR SEU NOME

Lembre-se: estamos interessados em respostas sinceras e cuidadosas.

I. DADOS GERAIS

l. Sexo:         MASCULINO          FEMININO

2. Quantos anos você completou no último ani­versário? ……………………………

3. Escola: …………………………………………………………………………………………………..

4. Assinale o “kit” com que você trabalhou hoje;

          Newton               Volta

          Lavosier          Gallileu

          Einstein

II. IMPRESSÕES PESSOAIS

5. Durante a realização do trabalho você estava, de um modo geral:

        Desinteressado

        Pouco Interessado

       Razoavelmente interessado

       Multo Interessado

6. Se você respondeu, na pergunta 5, que estava DESINTERESSADO ou POUCO INTERESSADO, como explicaria isso? (pode assinalar mais de uma alternativa).

       Não gosto de fazer experiências

       Não gosto de tarefas que exigem habilidade manual

       Eram muitas as coisas para fazer e eu me cansei

       As instruções não eram sempre claras

      Nem sempre as peças se encaixavam bem

      Outra razão, Qual? …………………………………………………………………………

7. Se você respondeu, na pergunta 5, que estava RAZOAVELMENTE INTERESSADO OU MUITO INTERESSADO, como explicaria isso? (pode assinalar mais de uma alternativa).

        Gosto de fazer experiências

        Gosto de tarefas que levam a gente a mexer com coisas

        Nem senti o tempo passar

       As instruções eram sempre fáceis e claras de serem seguidas pela gente

       As peças sempre se encaixam bem e são muito atraentes

       Apesar de que as pecas nem sempre se encaixam bem, acho que o material atraente

      Outra razão. Qual? ……………………………………………………………………………

8. Das experiências que você fez hoje, qual a que mais lhe agradou? ………

9. Das experiências que você fez hoje, qual a que menos lhe agradou? ………

      Por quê? ………………………………………………………………………………………

10. Na realização do trabalho de hoje, você sentiu:

     Muita dificuldade

    Razoável dificuldade

    Pouca dificuldade

    Nenhuma dificuldade

11. Se você respondeu, na perguna 10, que sentiu MUITA DIFICULDADE ou RAZOÁVEL DIFI­CULDADE, como explicaria isso? (pode assina­lar mais de uma alternativa).

    Não dou para fazer experiências

    Não dou mesmo para coisas de física e quí­mica

    Exige muita habilidade manual, que eu não tenho

    Nem sempre, eu conseguia entender o que me pediam para fazer

    Nem sempre as peças se encaixavam bem

    Outra razão. Qual? ………………………………………………………………………………….

12. Se você respondeu, não a pergunta 10, que sentiu POUCA DIFICULDADE ou NENHUMA DIFICULDADE, como explicaria isso? (pode assinalar mais de uma alternativa).

      Sou “gamado” por experiências e em geral me saio bem

      “Adoro” coisas de ciências físicas e quími­cas; em geral, me saio bem

      Tenho muita facilidade para lidar com coisas

      As instruções eram sempre claras e fáceis de acompanhar

      As peças são fáceis de encaixar e de usar

     Aprendi a observar e experimentar

     Sempre que posso, faço as minhas ”expe­riências”

     Outra razão. Qual?

13. Das experiências que você fez hoje, qual aque­la em que sentiu um pouco mais de dificuldade?……………………………………………………………………………………

      Porque?………………………………………………………………………………………………

14. Das experiências que você fez hoje, qual aquela em que sentiu maior facilidade? ………………………………………………………………………………………………….

      Porque? ………………………………………………………………………………………………

15. Se você pudesse, gostaria de: (pode assinalar mais de uma alternativa)

      Repetir o trabalho que fez hoje com o “kit”

      Tentar fazer novas experiências com o ma­terial do “kit” de hoje

      Trabalhar com outro “kit” da série Os Cientistas

      Trabalhar com outro “kit” da série Os Cientistas, mas que trate de assuntos não liga­dos a física ou química

      Não trabalhar mais com material de “kit” da série Os Cientistas

Outra coisa. Qual? ………………………………………………………………………………..

16. Em sua opinião, o material deste “kit” está:

      Bem construído: suas peças se encaixam com facilidade

      Mal construído: suas peças nem sempre se encaixam com, facilidade

17. Você teria alguma sugestão para tornar o “kit” de hoje mais atraente e/ou mais fácil?

SIM                     NÃO

Se respondeu SIM, diga qual (quais)…………………………………………………………

 

ANEXO 2 

Resultados obtidos no Pré e no Pós-teste pelo Grupo Experimental e Grupo Controle (número de acertos)

 

Grupo Experimental 

Grupo Controle 

Pré-teste                      Pós-teste

Pré-teste                  Pós-teste 

16                               22

21                             16  

19                               24

14                             17

15                               21 

18                             15

17                               20

15                             13 

14                               15

23                             23 

11                               14

10                            10 

15                               25 

7                               12

22                               25

21                             17 

9                                12

17                             19 

12                               20

16                             15 

13                               21

10                               7 

15                               18

18                             19

21                               19

9                               13 

18                                21

18                             19 

9                                 13

15                             18 

16                               17

24                             30 

16                               25

16                             14 

11                               13

24                             21 

18                               29

16                             15

16                               21

20                             19

11                               21

15                             10

14                              12

12                             10 

13                              14

13                             15 

14                              17

19                             19 

 


[1] Em ambos os casos, estas dificuldades não podem ser atribuídas à falta de habilidade dos sujeitos, mas também a condições ligadas ao próprio material e a fatores ambientais, como diferenças de peso nos pratos da balança e umidade excessiva do ar.

[2] Os espaços previstos para respostas no original do Opinionário, aqui reproduzido, foram reduzidos para fins desta publicação.


[1] Agradecemos a Luis Alberto de Lima Nassif e Veranice dos Santos Lette Ribeiro pela sua valiosa colaboração na construção de instrumentos utilizados nesta pesquisa; aos Colégios Rainha da Paz e São Domingos e ao Instituto Esta­dual de Educação Virgínia Rodrigues Aives de Carvalho Pinto, pela sua cooperação, facilitando nosso contato com seus alunos, e a estes jovens, que foram sujeitos da pesquisa; e à Abril Cultural, cujo interesse e apoio propiciaram-nos o material e as condições necessárias à realização da pesquisa.

[2] ** Do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas.

[3] Relatório completo desta pesquisa contendo os instrumentos utilizados e outros detalhes, encontram-se na Bi­blioteca do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas.

 

[4] Os observadores eram todos estudantes universitários que receberam treinamento específico na utilização da Escala de Observação para persistência na tarefa e no Roteiro de Observação para concentração na tarefa.

Agradecimento especial a Profª BERNADETE ANGELINA GATTI que gentilmente cedeu seu artigo para ser inserido nesse blog e ao Profº Bertoldo Schneider Jr. pelo gráfico refeito.

Referencial para esse artigo:

GATTI, B. A.; GOLDEBERG, M. A. A. A influência dos Kit’s “Os Cientistas” no desenvolvimento do comportamento cientifico em adolescentes. Cadernos de Pesquisa (Fundação Carlos Chagas), São Paulo, v. 10, p. 13-24, 1974.


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