Rawitscher – Transpiração Vegetal

Rawitscher

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caixa contendo experimentos sobre transpiração vegetal

Felix Rawitscher

Berta Lange de Morretes

Para organizar o Departamento de Botânica da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, criado durante a fundação da USP, em 1934, foi convidado o professor Felix Kurt Rawitscher, naquela ocasião professor na Universidade de Freiburg, na Alemanha.

Rawitscher tinha sido aluno de eminentes botânicos como Strasburger, Oltmans, Chodat e Pfeffer possuindo, portanto, excelente formação básica.

Em seus primeiros contatos com a juventude da época, verificou ser necessário estabelecer um bom programa de ensino, em moldes internacionais. Introduziu duas horas de aulas práticas para cada aula teórica, fato inédito no estudos de Botânica no Brasil. Além das aulas práticas, as excursões para a observação da vegetação dos diversos ecossistemas passaram a ser rotina durante o curso de Ciências Naturais.

Preocupado com a bibliografia em língua portuguesa, e a fim de que os alunos pudessem estudar botânica em moldes científicos, Rawitscher publicou, em 1940, o livro texto intitulado Elementos básicos de botânica geral, empregando para ilustrá-lo, tanto quanto possível, espécies brasileiras. O livro em questão abrange informações fundamentais sobre morfologia, taxonomia, anatomia e fisiologia e ainda é usado atualmente.

Desde que chegou ao Brasil empolgou-se pelos inúmeros problemas de nossa flora e, em pouco tempo, transformou-se em grande conhecedor da ecologia tropical. Publicou Problemas de fitoecologia com considerações especiais sobre o Brasil Meridional (1942 e 1944), obra em que analisa os fatores ecológicos mais importantes que atuam sobre a vegetação brasileira. Estudou especialmente as plantas do cerrado, ecossistema que o encantou desde o momento em que o conheceu. Assim, estabeleceu as primeiras linhas de pesquisa do Departamento de Botânica — estudos fisiológicos e ecológicos das espécies do cerrado. Mais tarde, essas linhas foram ampliadas e taxonomia, morfologia e anatomia ganharam relevo.

Rawitscher, desde o início, preocupou-se com a formação da escola, visando a preparar docentes capacitados a substituí-lo quando tivesse de se afastar. Foram seus primeiros colaboradores brasileiros Mário Guimarães Ferri, Mercedes Rachid, Berta Lange de Morretes e Aylthon Brandão Joly, alunos que, sob sua orientação, realizaram o doutoramento.

O período inicial do Departamento de Botânica foi um tanto conturbado pela falta de sede própria. O Curso de Ciências Naturais foi instalado precariamente em um dos andares da Faculdade de Medicina da USP, até que, pouco tempo depois, ocorressem incidentes com alunos e docentes da FM, por não admitirem a ocupação de um dos andares de sua Faculdade — apesar de ocioso.

O governo do estado de São Paulo adquiriu, então, um prédio situado na esquina das alamedas Glette e Guaianazes, no qual foram instalados os Departamentos de Biologia, Botânica, Zoologia, Mineralogia e Geologia. Couberam ao Departamento de Botânica o pequeno prédio que continha a lavanderia e a piscina coberta, bem como a garagem e a moradia dos empregados, além dos jardins.

Neste local, após as modificações necessárias, o Departamento de Botânica passou a conhecer alento com relação a parte dos problemas que o afligiam. Foram construídos um ripado e uma pequena estufa mergulhada e o material botânico necessário às aulas era aí cultivado.

Os primeiros auxiliares técnicos do Departamento de Botânica foram Maria Ignez Rocha e Silva, Alessio Padula e o jardineiro Sr. George Seyfried — formado na Alemanha —, técnicos eficientes, graças aos quais nunca faltou material para as aulas práticas ministradas no Departamento.

Rawitscher introduziu no Departamento de Botânica o salutar rodízio na ministração das diferentes disciplinas componentes do elenco curricular. Esse hábito fez com que a aquisição de conhecimentos que cada um dos docentes deveria ter nos diversos campos de Botânica fosse cumprida antes da especialização. Implantou, também, os seminários de Botânica, nos quais, mensalmente, docentes e doutorandos apresentavam resultados de pesquisa ou aspectos novos relatados na bibliografia internacional.

Com o surgimento das primeiras pesquisa realizadas por membros do Departamento, Rawitscher iniciou a edição do Boletim de Botânica, com o primeiro número publicado em 1937.

Assim, o Departamento viveu nas instalações da alameda Glette até 1958, ocasião em que ocorreu a mudança para o campus da Cidade Universitária, no Butantã.

Entramos em um prédio recém-construído e recebemos uma área que deveria ser transformada em Jardim Botânico do Departamento, além de instalações das casas de vegetação, estufins e nichos ecológicos.

O número de docentes do Departamento, nessa ocasião, já havia crescido e além de Ferri, Rachid, Morretes e Joly, integravam-no Leopoldo Coutinho, Marico Meguro, Maria Amélia Braga de Andrade e Antônio Lamberti. Ainda um número reduzido de docentes, mas, todos com o ideal de formar um Departamento no qual a compreensão, o progresso, a união e a ética deveriam coexistir.

Quando os nichos ecológicos abrigando vegetação de mangues, das restingas, das caatingas, do cerrado, dos campos rupestres foram instalados no Jardim Botânico, contávamos apenas com o auxílio de dois jardineiros. Causava alegria ver o espanto dos pesquisadores estrangeiros que visitavam o Departamento ao encontrarem um manguezal, uma restinga a quase 900 m de altitude! Infelizmente, os sucessivos responsáveis pela área do Jardim Botânico desativaram os nichos ecológicos, fato altamente lamentável.

Com a extinção da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo e a criação do Instituto de Biociências, o Departamento de Botânica passou a fazer parte dessa nova unidade da USP.

O curso de História Natural deixou de existir, sendo substituído pelo curso de Biociências. Todos estes fatos ocorreram no fim da década de 60.

Com o aumento do número de docentes, surgiam novas linhas de pesquisa e foram criados, sucessivamente, os laboratórios de anatomia, ficologia, taxonomia de fanerógamas, cultura de tecidos e fitoquímica.

Atualmente o Departamento conta com 21 professores em regime de dedicação exclusiva, que ministram aulas nos cursos diurno e noturno para aproximadamente 800 alunos por ano. Além do curso básico, o Departamento de Botânica oferece a pós-graduação em nível de mestrado e doutorado, procurada até por alunos de outros países. Nestes cursos, também colaboram professores já aposentados.

No decorrer de todos esses anos, o entusiasmo inicial pelo ensino e pela pesquisa decresceu, mas o bom nível felizmente ainda persiste.

Berta Lange de Marretes é professora do Departamento de Botânica da Faculdade de Biociências da USP.

Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141994000300021

Fotos do kit gentilmente cedidas pelo Profº Newton C Frateschi da do Departamento de Física da Unicamp

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